CONFISSÃO
J.G. de Araujo Jorge


Eu queria num gesto inútil de arrependimento
Ajoelhar-me aos teus pés
E adorar-te,

-E a minha adoração
Seria a eterna prece dos meus lábios impuros
Em penitência,

À beleza de tua imagem cheia de inocência
E perfeição...



Só em erguer os olhos para o teu vulto, eu sinto
Que te profano,

E a minha crença é talvez a fatal perdição
De tua vida...

 

Tu me julgas um deus, julgaste-me perfeito,
E foi tamanho o teu engano
Que hoje nem queres crer quanto foste iludida!



Minhas mãos deixam máculas em tuas mãos, antes brancas
Como as das santas de gesso...

- Meus beijos contém veneno
E infelizmente
Nunca pudeste ver minha alma pelo avesso...

 

Por que não te esquivaste à ousadia dos meus braços
Dos meus lábios
Das minhas mãos?

Não devias sentir pelas minhas palavras
Senão desprezo e horror...



Ah! tu não podes ver que és imprudente e criança
E que te entregas assim...

Com essa tua confiança
Ao tóxico mortal do mais doentio amor!

 

Devias evitar as minhas mãos,
Devias
Esquivar-te ao meu contato,

Libertar-te de mim e do absurdo pesadelo
Do meu domínio.



- Porque, nem eu sabia o mal que te causava,
E quero fazer-te um bem agora, abrir teus olhos

Ainda em tempo talvez
A um tão funesto fascínio...

 

Ah! Mil perdões porque arrastei-te em vão
Comigo
Em meu destino...

E desviei teu rumo que era claro e azul
Para as sombras do meu, aventureiro e incerto...



Mil perdões porque tanto te adoro,

Porque...

Nao posso renunciar-te por um mal já feito
E, covarde! - ainda te amo... Ainda te quero perto!

 

Eu te ergui num altar eu te quis santa e pura
Precisamente como fui te achar,

Para...

Estranho prazer! abraçar-te, sentir-te,
Numa imensa loucura

E arrependido após, atirar-me aos teus pés
Em silêncio... A chorar!



Merecias que um outro igual a ti passasse
Pelo teu caminho
E te ofertasse o braço e oferecesse a mão...

 

Ah! Nada pude dar-te além de meu desejo
E é tão pouco o desejo para quem procura

Uma alma,
Um coração!



Tua alma. Ah! tua alma era assim, bem assim
Sonoramente bela

Transparente e hialina
Como a fímbria azulada de uma taça fina
De cristal



E a minha alma, ahl minha alma, sempre impulsiva
E louca,

Foi deixar sobre a fímbria azul da taça fina
A mancha da minha boca
Doentia e sentimental!

 

Merecias que um outro que não eu te visse
Naquela mesma noite em que te vi

E te adorei
E quis,



- Porque ele, esse “ele” estranho que eu odiaria
Com o meu ódio mais profundo,

Só ele, - quase o creio, - poderia
Te fazer feliz!

 

Merecias alguém que te desse um recanto
Afastado (é melhor afastado).



Um recanto
Que fôsse como um ramo sossegado
Ou como um ninho,

Muito alto, sob o fundo de um céu azulado,
E onde cantasse enamorado
Algum poeta feliz que nasceu passarinho



Merecias alguém que te tomasse as mãos
Com sincera meiguice,

E pudesse entender o que nunca entendi
E soubesse dizer o que eu nunca te disse!

 

Alguém que respeitasse o teu amor, alguém
Que fosse tal como és

E vivesse aos teus pés
Numa outra adoração,

- Que não seria a minha, impura e feita apenas...
De profanação!

Por que hoje, - em minha angústia, sofro ante o irreparável
Ao ter que me conformar

Com esse mal que acabei por fazer a mim mesmo
Quando o fiz contra ti,



- Sofro, porque te achei tal como eu te queria
Tal como eu te esperava
E te destrui!