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Eu
queria num gesto inútil de arrependimento
Ajoelhar-me aos teus pés
E adorar-te,
-E a minha adoração
Seria a eterna prece dos meus lábios impuros
Em penitência,
À beleza de tua imagem cheia de inocência
E perfeição...
Só em erguer os olhos para o teu vulto, eu sinto
Que te profano,
E a minha crença é talvez a fatal perdição
De tua vida...
Tu
me julgas um deus, julgaste-me perfeito,
E foi tamanho o teu engano
Que hoje nem queres crer quanto foste iludida!
Minhas mãos deixam máculas em tuas mãos, antes
brancas
Como as das santas de gesso...
- Meus beijos contém veneno
E infelizmente
Nunca pudeste ver minha alma pelo avesso...
Por
que não te esquivaste à ousadia dos meus braços
Dos meus lábios
Das minhas mãos?
Não devias sentir pelas minhas palavras
Senão desprezo e horror...
Ah! tu não podes ver que és imprudente e criança
E que te entregas assim...
Com essa tua confiança
Ao tóxico mortal do mais doentio amor!
Devias
evitar as minhas mãos,
Devias
Esquivar-te ao meu contato,
Libertar-te de mim e do absurdo pesadelo
Do meu domínio.
- Porque, nem eu sabia o mal que te causava,
E quero fazer-te um bem agora, abrir teus olhos
Ainda em tempo talvez
A um tão funesto fascínio...
Ah!
Mil perdões porque arrastei-te em vão
Comigo
Em meu destino...
E desviei teu rumo que era claro e azul
Para as sombras do meu, aventureiro e incerto...
Mil perdões porque tanto te adoro,
Porque...
Nao posso renunciar-te por um mal já feito
E, covarde! - ainda te amo... Ainda te quero perto!
Eu
te ergui num altar eu te quis santa e pura
Precisamente como fui te achar,
Para...
Estranho prazer! abraçar-te, sentir-te,
Numa imensa loucura
E arrependido após, atirar-me aos teus pés
Em silêncio... A chorar!
Merecias que um outro igual a ti passasse
Pelo teu caminho
E te ofertasse o braço e oferecesse a mão...
Ah!
Nada pude dar-te além de meu desejo
E é tão pouco o desejo para quem procura
Uma alma,
Um coração!
Tua alma. Ah! tua alma era assim, bem assim
Sonoramente bela
Transparente e hialina
Como a fímbria azulada de uma taça fina
De cristal
E a minha alma, ahl minha alma, sempre impulsiva
E louca,
Foi deixar sobre a fímbria azul da taça fina
A mancha da minha boca
Doentia e sentimental!
Merecias
que um outro que não eu te visse
Naquela mesma noite em que te vi
E te adorei
E quis,
- Porque ele, esse “ele” estranho que eu odiaria
Com o meu ódio mais profundo,
Só ele, - quase o creio, - poderia
Te fazer feliz!
Merecias
alguém que te desse um recanto
Afastado (é melhor afastado).
Um recanto
Que fôsse como um ramo sossegado
Ou como um ninho,
Muito alto, sob o fundo de um céu azulado,
E onde cantasse enamorado
Algum poeta feliz que nasceu passarinho
Merecias alguém que te tomasse as mãos
Com sincera meiguice,
E pudesse entender o que nunca entendi
E soubesse dizer o que eu nunca te disse!
Alguém
que respeitasse o teu amor, alguém
Que fosse tal como és
E vivesse aos teus pés
Numa outra adoração,
- Que não seria a minha, impura e feita apenas...
De profanação!
Por
que hoje, - em minha angústia, sofro ante o irreparável
Ao ter que me conformar
Com esse mal que acabei por fazer a mim mesmo
Quando o fiz contra ti,
- Sofro, porque te achei tal como eu te queria
Tal como eu te esperava
E te destrui!
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