-
Um lápis encantado?! -
falou Mariana, s urpresa.
- Como você é bobo, Gustavo!
- Você não acredita, não é Mariana? - disse Gustavo com olhar de quem
estava prestes a aprontar algo.
- Vou mostrar-lhe (Gustavo pegou uma folha do bloquinho que carregava no
bolso da bermuda e escreveu deixando a garota ler: "Mariana cara de
banana").
Num minuto...
- Meu Deus, estou sentindo um comichão no rosto. O que você fez comigo,
Gustavo?! - perguntou Mariana assustada enquanto passava as mãos pela
face.
- Você vai me pagar! - gritou a menina antes de desatar a correr para
casa.
Mariana ainda escutou Gustavo falar para que ela mantivesse a calma que
tudo voltaria ao normal num piscar de olhos, ou melhor, num "escrever de
lápis".
Ao se ver sozinho, Gustavo saiu andando sem rumo certo. Pensou em voltar
para casa, poderia brincar em seu quarto, mas qual! Queria mesmo era
testar mais uma vez seu lápis encantado.
Aliás, a história de como ele achara o lápis era confusa. Gustavo havia
segredado a um amiguinho que encontrara o lápis na casa de uma tia que
estava à beira da morte.
Essa tia, que era mais tia da mãe do que dele mesmo, vivia sozinha numa
cidade do interior e tinha costumes muito estranhos.
Seus vizinhos nunca a viram trabalhar e ninguém nunca a vira sair de
casa e muito menos perceberam a presença de estranhos ali, porém, Dona
Gumercinda (este era o nome da tia) usufruía de todo conforto numa casa
que em relação às outras da vizinhança, era enorme e bem aparelhada.
Segundo Gustavo, a tia falecera no terceiro dia em que ele e sua mãe
estavam lá.
Sua mãe era a única herdeira ainda viva da tal tia e eles como parentes
diretos permaneceram na residência até resolverem tudo o que dizia
respeito à tia Gumercinda e foi lá que ele encontrara o lápis encantado.
O lápis estava guardado numa pequena caixa de madeira toda trabalhada
com desenhos dourados.
Gustavo disse ao amigo que de primeiro momento deixou o lápis ali, mas
que teve uma surpresa enorme ao usa-lo para anotar o que queria que sua
mãe trouxesse do supermercado.
As coisas que ele ia anotando, simplesmente apareciam do nada!
Gustavo falou ao amigo que sentiu muito medo e até pensou em contar à
mãe, só que começou a gostar da brincadeira.
Escreveu "quero uma bicicleta" e em segundos lá estava a bicicleta.
"Desapareça bicicleta" e ploft, a bicicleta sumia.
- Isso é perigoso, Gustavo! - falou o amigo depois de ouvir tudo
pacientemente e de ver que Gustavo não havia mentido (Gustavo fizera
aparecer para Marcelo um skate de dedo apenas escrevendo numa folha:
"quero um skate de dedo para meu amigo Marcelo").
- Por quê? - indagou Gustavo sem entender o que Marcelo queria dizer.
- Porque você pode começar a fazer coisas erradas! E também não acho
correto brincar com coisas sérias assim. E se esse lápis cair nas mãos
de pessoas más?!
Gustavo se lembrou da conversa que tivera com o amigo e sentiu remorso
por ter brincado com Mariana daquele modo.
Tudo bem que ela tinha mesmo cara de banana. Mas ele agiu de muito mau
gosto.
Resolveu, então, voltar à rua de Mariana e pedir-lhe desculpas.
- Mariana, desculpe-me. Foi mal o que eu fiz. Eu não deveria ter feito
você ficar com cara de banana. - disse Gustavo cabisbaixo.
- O que, Gustavo?! - esbravejou a menina - Acha mesmo que eu vou
acreditar nessa história de lápis encantado? O que aconteceu é que eu
senti um comichão no rosto provocado por um pernilongo e boba que sou
achei que o que você havia escrito era verdade. Faça me o favor, né
Gustavo? Lápis encantado! Só você mesmo para acreditar nisso e achar que
pode enganar os outros.
Gustavo olhou para Mariana e sentiu uma raiva danada.
Como ela poderia estar duvidando dele e de seu lápis encantado?
Olhando para a menina com cara de quem estava para pular no pescoço
dela, Gustavo pensou:
"como fui bobo em pedir desculpas à Mariana, ela mereceu e merece mais"!
Raivoso, o menino tirou do bolso da bermuda seu agora inseparável bloco
de notas e escreveu: "Mariana cara de hiena".
Mariana leu o que Gustavo escrevera e soltou uma gargalhada.
Pegou o lápis e o bloco de notas do menino e escreveu: "Gustavo, leve
embora seu lápis encantado lá para as bandas da rua Alfredo Gedalírio.
O Marcelo me contou que vocês, na casa dele, brincaram com um pedaço de
lixa de unha imaginando um skate de dedo".
Mariana entregou o bloco de notas e o lápis a Gustavo e entrou
gargalhando.
O garoto leu o que Mariana escreveu, sorriu e em pensamento falou:
"não é que a Mariana ri mesmo como uma hiena?! Meu lápis encantado é o
máximo, pena que a Mariana é que não saiba brincar!"
|
|